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A Coalizão Internacional pela Saúde das Mulheres (IWHC) procura gerar políticas, programas e financiamento nos campos da saúde e população que promovam e protejam os direitos e a saúde da mulher e das meninas no mundo inteiro.

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Dadine Dsandjon
24 anos
Reseau National des Associations des Tantines (RENATA)
Camarões


>>Disponível em Word e PDF

Dadine é a Secretária Executiva Assistente da RENATA (Reseau National des Associations des Tantines ou "National Network of Aunties Association"), uma rede de mais de 60 associações "Aunties" em Camarões que oferece educação sexual abrangente a adolescentes e às mães adolescentes.   Dadine é treinada formalmente na prevenção da gravidez precoce e indesejada, infecções sexualmente transmitidas (DSTs) incluindo HIV/AIDS, e práticas tradicionais perigosas tais como aborto de risco. Ela entrou para a Tantines como uma jovem mãe, e desde então tem orientado vários adolescentes e mães adolescentes. Dadine busca atualmente formar-se em psicologia em Yaoundé, Camarões.    

IWHC: Conte-nos a história de sua vida.

Dadine Dsandjon: Meu pai tem três esposas e 26 filhos.  Sou a décima nona filha do meu pai, e a quinta filha da minha mãe.  Eu cresci com toda minha família em Douala, onde cursei a escola primária.  Quando eu tinha 11 anos, meu pai perdeu o emprego e ficou muito caro morar na cidade. Mudamos para uma aldeia e matriculei-me na escola secundária.

Mas no último ano do curso, quando eu tinha 17 anos, engravidei de um garoto da escola.  Meu pai ficou furioso.  Ele me mandou para a escola para que eu tivesse um futuro e conseguisse um bom emprego.   Eu fui a única das nove filhas a chegar ao último ano da escola secundária.   Eu poderia ter entrado para a universidade, mas, em vez disso, engravidei, arrumando mais uma boca para meu pai alimentar. 
 
Meu pai ameaçou mandar prender o rapaz, que fugiu da aldeia e me abandonou grávida e sozinha.  Fiz tudo que pude para interromper a gravidez, mas nada funcionou.  Aos quatro meses de gravidez, eu comprei algumas ervas e folhas locais de um curandeiro tradicional que me orientou a colocá-las dentro da vagina.     Esse procedimento não interrompeu minha gravidez e deixou cicatrizes. Depois, fiquei com medo de ter machucado meu filho e de que ele nascesse com problemas de desenvolvimento, mas graças a Deus ele está bem. 
 
Meu pai morreu três meses depois que eu engravidei, portanto, não havia ninguém para cuidar da minha saúde.   Eu fui a raras consultas de pré-natal.  Minha mãe me obrigou a deixar e escola para começar a trabalhar nos campos com ela, mas um ano depois de eu dar à luz, ela concordou em cuidar do meu filho para que eu voltasse a cursar o último ano do ensino secundário.   Eu me esforcei muito para concluir o curso.

Nessa época, um programa chamado Tantines foi lançado na minha região e realizou uma pesquisa.   Em Camarões, "tantine" significa uma mulher que aconselha e guarda segredos.  O programa adotou esse nome porque elas conversam de maneira confidencial sobre sexualidade com mulheres e meninas.   Como eu era uma mãe adolescente, a Deutiche Gesellschaft fur Technische Zusammenarbiet (GZT) - organização alemã que coordena as Tantines - perguntou se eu gostaria de participar do programa. Fui treinada na prevenção de gravidez indesejada, infecções sexualmente transmissíveis (DSTs) e HIV/AIDS.  Também fui treinada em higiene e cuidados infantis. 

Depois, a GTZ criou a RENATA (Reseau National des Associations des Tantines), uma rede de mais de sessenta associações em oito províncias.  Decidiram que quatro meninas representariam a rede em um escritório em Yaoundé.  Dos quatro cargos existentes, fui eleita para ser a Secretária Executiva Assistente (Adjunta) da RENATA.

IWHC: Qual sua primeira lembrança como jovem garota ou jovem mulher de uma situação da qual você estava pessoalmente ciente ou na qual foi afetada pelas desigualdades de gênero ou ausência de direitos para meninas e mulheres?

DD: Tradicionalmente, as mulheres ocupam um lugar inferior ao dos homens.  Se um homem estiver sentado, a mulher deverá sentar em uma cadeira mais baixa do que a dele.  Ela não pode nem olhar para ele nem falar com ele, exceto para dizer "sim" ao pai, a um dos irmãos mais velhos ou ao irmão mais velho" e assim por diante.   O marido tem o direito de chamar a esposa pelo nome, mas a esposa não tem o mesmo direito.   Ela só pode dizer "sim, meu senhor."

Há muitas restrições ao que as mulheres podem fazer. Por exemplo, há certos alimentos que somente os homens têm permissão para comer.  

IWHC: Como a experiência de crescer em Camarões pode diferir para meninos e meninas, tanto na infância quanto na adolescência?  As atividades, os interesses e a percepção do futuro são diferentes para meninos e meninas?

DD: Os meninos não tinham nenhuma tarefa doméstica, mas as meninas sempre tinham de estar em casa. Não podíamos sair ou fazer as coisa que queríamos. Os meninos saíam para brincar enquanto nós ficávamos dentro de casa ajudando nossa mãe com as tarefas.   Quando éramos convidadas para alguma festa, não tínhamos autorização para ir, mas os meninos podiam ir livremente.   Quando reclamávamos, as mães diziam, "Eles são meninos. E vocês são meninas. Vocês precisam aprender a ser dóceis para seus futuros maridos."

Isso mudou quando me tornei adolescente. Os meninos também tinham que fazer tarefas domésticas. Eu tive um pouco mais de liberdade porque quando eu e minhas irmãs ficamos mais velhas começamos a nos rebelar contra o tratamento diferenciado.  Nos tornamos realmente teimosas e voluntariosas. 

IWHC: Em sua fase de crescimento, você algum dia aprendeu ou conversou sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos?

DD: Nunca falamos sobre essas coisas, nem mesmo com nossas irmãs.  Tudo que nossas mães nos diziam era que após ficar menstruada, podíamos engravidar.  Não nos forneciam nenhum detalhe ou informação sobre como nos proteger de uma gravidez indesejada.  Eu não fazia idéia do que nossos pais pensavam sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos porque eles nunca falavam sobre isso.

IWHC: O que a inspirou a trabalhar com Tantines?

DD: Quando se dá á luz na adolescência, é comum não ser respeitada pelas outras pessoas da comunidade.  Eu me sentia reduzida a nada-diminuída-até que entrei para as Tantines.

Eu senti que havia encontrado alguém em quem confiar-alguém que podia se identificar com meus problemas e responder às minhas perguntas sobre saúde sexual e reprodutiva.  Isso me fez querer participar da organização para poder oferecer a mesma ajuda para outras pessoas.


IWHC: De que forma você acha que as Tantines mudaram a vida dos jovens, quer em casos específicos ou em geral?

DD: Pessoalmente, as Tantines tem tido um efeito incrivelmente positivo na minha vida.  Hoje, eu sou uma funcionária executiva e tenho um salário. É como se as Tantines tivessem me tirado do escuro e mostrado a luz.  Eu estive trabalhando nos campos, e agora estou ajudando a gerenciar uma organização.  

As Tantines trabalham para fazer essas mudanças na vida de todas as garotas envolvidas com a organização. A organização não nos oferece apenas educação sexual.  Ela nos encoraja a voltar para a escola ou ajuda aquelas que não têm recursos fazer isso a participar de atividades que gerem renda, de modo que possam se tornar autônomos e não precisem depender de um homem.  

IWHC: Quais são, em sua opinião, os grandes desafios enfrentados pelos jovens em Camarões atualmente? Quais são as maiores oportunidades?

DD: Um grande desafio que os jovens dos Camarões enfrentam é o acesso à educação. As taxas de matrícula da escola secundária são geralmente muito altas. Isso impede que muitos jovens se matriculem, especialmente nas áreas rurais.  

Em especial, os jovens precisam ser informados sobre seus direitos sexuais.  Em Camarões, os direitos das mulheres jovens são violados o tempo inteiro.  Muitas mulheres não sabem que têm o direito de decidir com quem e quando terão relações sexuais.  As meninas geralmente se sentem obrigadas a ter relações com qualquer menino ou homem que as desejem.  Nas áreas rurais onde muitas pessoas não freqüentam a escola, as informações sobre sexualidade são ainda mais importantes porque se as meninas não receberem instrução, serão ainda mais facilmente manipuladas. Os meninos também precisam ter acesso a informações sobre direitos sexuais, para que aprendam que as meninas têm o direito de escolher seus parceiros. Muitos homens são igualmente ignorantes.

Aos poucos, cada vez mais jovens estão se manifestando sobre suas realidades e necessidades. Estamos chegando a um ponto onde a sexualidade não é mais um tabu; conversamos sobre sexualidade na escola e os pais também estão mais dispostos a discutir sobre o assunto.

Além disso, as oportunidades para mulheres estão aumentando. Como nunca houve antes, hoje há mais mulheres ocupando cargos de poder. Atualmente, há mulheres que são donas de empresas, membros do Parlamento e das Forças Armadas. 

IWHC: Cite algumas das mais importantes questões, em sua opinião, que programadores e formuladores de políticas devem tratar para promover e proteger a saúde e os direitos dos jovens - especialmente das meninas.

DD: A mortalidade maternal e infantil, como resultado da gravidez precoce em especial, deve ser tratada.  Quando uma adolescente engravida, geralmente seu corpo não está suficientemente desenvolvido para carregar uma criança e muito menos para dar à luz.  É muito comum que ela seja abandonada por seu parceiro, e geralmente esconde a gravidez dos pais porque tem medo de ser tachada pela família - e pela sociedade em geral - de promíscua, ou mesmo de prostituta.   Isso significa que ela nunca procura atendimento médico, e assim pode correr risco de infecção ou outras complicações.  Seus pais só descobrem sobre a gravidez quando ela já está em trabalho de parto, mas eles a rejeitam e ela e o bebê têm que se virar sozinhos.  Como resultado desses fatores, testemunhamos cada vez mais histórias sobre recém-nascidos que são abandonados por mães adolescentes.  

Como não recebem qualquer proteção ou apoio ao engravidar, muitas jovens tentam fazer um aborto.  Mas como o aborto é ilegal, muitas adolescentes recorrem ao aborto de risco, que pode ser perigoso tanto para a mãe quanto para o feto.  O aborto deve ser um procedimento legal para que as mulheres não sejam forçadas a prejudicar sua saúde ao dar à luz quando seus corpos ainda são muito imaturos, e para que não recorram ao aborto de risco.   

Os programadores e formuladores de políticas também devem melhorar o acesso aos serviços de saúde.  Muitas gestantes não vão para o hospital porque não possuem meios de pagar as taxas hospitalares.  

IWHC: Você tem exemplos positivos de sua vida profissional ou experiência pessoal nos quais o diálogo e a programação alcançaram a participação ou a liderança significativa dos jovens?  O que houve de efetivo com relação a esses exemplos em especial?

DD: Os treinamentos das Tantines ensinam as jovens a abordar outros jovens e escutá-los ativamente, bem como desenvolver soluções para seus problemas. 

Eu tenho muitos exemplos de como essa abordagem capacitou os jovens ao integrá-los no diálogo sobre seus direitos. De volta à minha aldeia, eu costumava realizar conversas educacionais com meninas.  Fornecendo-lhes as informações necessárias sobre seus direitos e a importância de seus problemas foi muito capacitante para elas. 

IWHC: Do que mais você tem orgulho?  

DD: Meu trabalho com as Tantines me faz sentir importante e útil na sociedade.  Fico feliz quando caminho pela rua e escuto as pessoas chamando meu nome.  Tenho orgulho quando as meninas vêm me agradecer por algum conselho que eu tenha dado a elas.

IWHC: Quais são seus sonhos para o futuro? Pode descrever sua visão de um mundo ideal, ou melhor?

DD: Espero retornar à escola e me graduar em psicologia na universidade de Yaoundé. Quero continuar no mesmo campo de trabalho (ajudando outras pessoas por meio de aconselhamento), portanto, sinto que a psicologia é a melhor área de estudo para mim.

Para mim, o mundo ideal é um mundo justo e pacífico, onde não há desigualdades e onde as pessoas são reconhecidas por seu mérito e capacidades, e não por seus contatos pessoais.

IWHC: Como você imagina seu futuro?

DD: Eu gostaria de ser a líder de uma organização não-governamental (ONG), onde eu trabalharia como psicóloga.  A ONG trabalharia para proteger e defender os direitos das crianças e promover seu tratamento e cuidados.   Amo crianças e gostaria de defender seus interesses.

IWHC: Como fez seu primeiro contato com a IWHC?

DD: Ouvi falar pela primeira vez na IWHC por meio da organização Mulheres, Saúde e Desenvolvimento na África Subsaariana (Femmes, Santé et Développement en Afrique Sub-Saharienne - FESADE).  Quando eu trabalhava com a RENATA, participei de um workshop sobre o currículo da FESADE. Fui convidada para uma cerimônia na FESADE - a graduação de seus multiplicadores - onde ouvi um palestrante agradecer à IWHC. Então, pesquisei sobre a IWHC na rede e me inscrevi para participar da consulta aos jovens organizada pela IWHC em Yaoundé. 


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