Lydia Alpízar Durán
35 anos
Diretora Executiva, Associação para os Direitos da Mulher no Desenvolvimento
Costa Rica e Mexico
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Lydia é feminista costarriquenha que vive na Cidade do México. Participou ativamente da organização e mobilização de jovens em torno dos processos da Cúpula da Terra em 1991-1992 e trabalhou durante vários anos como Coordenadora do Programa de Juventude do Conselho da Terra. Ela agilizou a participação de mulheres jovens da América Latina no processo de preparação da Conferência Beijing 95, coordenando um projeto internacional chamado "Nossas palavras, nossas vozes: mulheres jovens pela mudança. As vozes das mulheres jovens além de Beiing 95." Lydia é co-fundadora e assessora da ELIGE - Rede de Juventude pelos Direitos Reprodutivos e Sexuais (México) e também co-fundadora da Rede Latino-Americana e Caribenha de Jovens pelos Direitos Reprodutivos e Sexuais. Desde 1996 é membro da Junta Diretora Da Comissão Internacional para o Conselho da Paz. É membro da Junta Diretora do Fundo Global para as Mulheres e membro da Junta Diretora do Conselho Internacional sobre Políticas de Direitos Humanos com sede em Genebra. Em 2000, Lydia foi representante regional para a América Latina da Comissão Internacional de ONGs para Beijing + 5. Participou durante vários anos da campanha "Ponha fim à impunidade: Basta de mulheres assassinadas", uma iniciativa mexicana para pôr fim ao assassinato de mulheres em Ciudad Juárez, na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Lydia é socióloga e ex-participante do Programa de Formação de Defensores de Direitos Humanos do Centro de Estudos de Direitos Humanos da Columbia University. Tem vasta experiência em defesa de direitos e formação em direitos humanos da mulher, especialmente direitos sexuais e reprodutivos e violência contra a mulher.
Jennifer Kidwell, IWHC: Você pode compartilhar a história como e por quê se envolveu nos movimentos feministas e de juventude?
Lydia AlpÍzar Durán: Comecei a ser ativista quando tinha 17 anos de idade. Eu vivia na Costa Rica – meu país de origem – e participei de um programa de intercâmbio em educação para o desenvolvimento para jovens do Canadá e da Costa Rica. O programa foi realmente excelente quanto a apresentar uma visão crítica de diferentes questões e uma compreensão e consciência de questões existentes na própria comunidade. Para mim foi realmente uma experiência com conseqüências para toda a vida. Entrei em contato com uma realidade diferente que me ajudou a compreender as relações entre o Norte e o Sul e o papel dos jovens na comunidade, a importância de conhecer outros países, bem como aprender e valorizar o meu próprio país – os seus habitantes, os seus problemas – e a minha capacidade de atuar para mudar a realidade em que vivemos. Aprendi a fazer coisas novas, tais como trabalhar como parte de uma equipe, viver com uma família estrangeira, ajustar-me a uma cultura diferente, falar inglês mais fluentemente e organizar e dirigir workshops e apresentações para pessoas diferentes, etc. O programa realmente me levou a envolver-me no ativismo e a fazer alguma coisa para mudar a realidade em que eu vivia.
Ao terminarmos o programa, várias de nós decidimos criar uma pequena organização não-governamental (ONG) para continuar este tipo de trabalho. No início, trabalhamos muito com os jovens em torno de um desenvolvimento ambiental e sustentável. Foi interessante porque era a época da Earth Summit (Cúpula da Terra – também conhecida como a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento ou UNCED) e nós nos organizamos com colegas do Canadá no Fórum Mundial da Juventude para tentar exercer um impacto. Isto significou que eu precisava participar realmente na mobilização da juventude… Eu fiquei encarregada de organizar jovens ativistas do México e da América Central. Como não dispúnhamos de muitos recursos, viajamos por toda a região com mochilas organizando grupos de jovens. E funcionou – mais de 400 pessoas de cerca de 114 países participaram do Fórum. Assim, desde o início eu participei do trabalho nos níveis tanto local como internacional.
No correr do tempo, as questões de gênero começaram a surgir no contexto do movimento ambiental da juventude. Éramos um grupo de mulheres trabalhando arduamente e os homens iam e vinham e tomavam as decisões. Assim não demorou muito a chegarmos ao ponto em que eu sabia que alguma coisa precisava de mudar.
Comecei a participar mais intensamente do movimento das mulheres na Costa Rica, especialmente organizando jovens feministas para fazer alguma coisa.
Naquela época, era mais difícil para as mulheres jovens conseguir espaço para trabalhar em questões importantes para elas. Agora, há mais espaço para jovens feministas participarem de forma expressiva e com conhecimento mais profundo da importância de abrir espaços para jovens feministas ativistas.
O ponto crítico seguinte foi a Conferência Mundial de Beijing sobre a Mulher, realizada em 1995. Eu trabalhei intensamente na organização dessa conferência. A minha tarefa era organizar mulheres jovens na América Latina. Eu fazia parte da organização de uma assembléia dessas mulheres e coordenei a publicação de uma ferramenta de defesa de direitos com jovens feministas de 17 países. Começávamos apenas a aprender a usar o correio eletrônico para criar uma rede global. Se não tivéssemos esta ferramenta teria sido muito difícil preparar o relatório. Foi um projeto divertido, porque havia pessoas da Jordânia, Estados Unidos, Venezuela, Panamá, Países Baixos, Nepal e Filipinas. Todas nós documentávamos a discriminação contra as mulheres jovens para preparar um caso sólido, porque toda vez que uma mulher jovem levantava uma questão, perguntava-se o que havia de tão importante e tão especial! Percebemos que tínhamos de produzir casos concretos que demonstrassem de forma específica como as mulheres jovens eram discriminadas. Queríamos documentar esses casos e então propor o que queríamos ver na Plataforma de Ação. Assim, nós nos empenhamos em reuniões preparatórias para Beijing, especialmente a Quarta Reunião da Comissão Preparatória (PrepCom IV), realizada em Março de 1995 na cidade de NovaYork.
JK: Lembra-se de algum exemplo dessa publicação?
LAD: Fizemos um estudo de caso sobre os assim chamados "crimes de honra" na Jordânia. O estudo de caso das jovens jordanianas com quem trabalhávamos incluía uma história pessoal e uma análise contextual da questão. Elas apresentaram uma recomendação específica sobre as mulheres jovens, porque frequentemente são vítimas das assim chamadas "morte de honra". Lembro-me de que este fato realmente foi marcante para mim, porque o relato utilizado dizia respeito a uma mulher jovem morta pelo próprio pai em conseqüência de um estupro cometido pelo irmão dela.
Tivemos um caso muito interessante sobre violência contra a mulher nos Estados Unidos. E como são freqüentes os casos sobre participação política, acesso à educação e questões de sexualidade e reprodução. Publicamos o relatório em inglês, francês e espanhol. Foi utilizado como ferramenta para defesa de direitos em geral, mas nós estávamos organizadas para pressionar certas questões. Por exemplo, eu era assessora da delegação do Governo da Costa Rica à PrepCom IV e uma parte da Plataforma de Ação referia-se à importância de assegurar que mulheres jovens solteiras tivessem acesso à educação quando engravidavam, porque com freqüência eram simplesmente expulsas da escola. Na qualidade de assessora da delegação, participei ativamente de algumas das negociações e, ao mesmo tempo, fiz parte da assim chamada Equipe Editorial de ONGs que reuniu todas as opiniões sobre o projeto de Plataforma de Ação, elaborado no contexto do famoso Grupo de Vinculação. Portanto, eu também trabalhei na linguagem de política que depois surgiu da Conferência. Trabalhamos com uma grande equipe de feministas mais velhas e foi fantástico. Foi algo inesquecível para mim.
Naquela altura eu me mudei da Costa Rica para o México e realmente me envolvi no movimento feminista mexicano. Portanto, a maior parte do meu ativismo teve lugar no México. Mantive contacto direto com um grupo de jovens líderes que trabalhavam em estreita coordenação com o Grupo de Informação em Reprodução Escolhida (GIRE), uma das organizações de direitos sexuais e reprodutivos mais importantes do México. O GIRE criou um espaço para jovens líderes estabelecerem uma rede sobre direitos sexuais e reprodutivos e eu fui um dos membros fundadores do que se tornou a Rede de Jovens pelos Direitos Reprodutivos e Sexuais (ELIGE). Fizemos muitas coisas diferentes no nosso trabalho com os jovens, tais como formação e defesa de direitos, organização e mobilização. Participamos ativamente do processo de preparação da Conferência Cairo + 5. Conseguimos angariar dinheiro e apoio para criar uma rede regional de jovens sobre direitos sexuais e reprodutivos, a qual mais tarde se tornou a Rede de Jovens Latino-Americanos e Caribenhos pelos Direitos Sexuais e Reprodutivos (REDLAC). Foi uma experiência fantástica.
Trabalhei muito na coordenação das ONGs em preparação para a Conferência Beijing + 5, porque fui escolhida por grupos de mulheres da região como representante da ONG na Equipe Internacional de Coordenação. Trabalhei muito no estabelecimento de redes, informação e mobilização para a Beijing + 5. Estávamos cercadas de pessoas da direita e, como se organizavam em grande número, foi uma época difícil. Durante todos estes anos eu também trabalhei em questões relacionadas com o desenvolvimento, atividade comunitária, formação, fortalecimento de capacidades e direitos humanos da mulher direcionados a mulheres jovens com diferentes organizações.
JK: Você trabalhou muito com redes – nos níveis tanto regional como global. Na sua opinião, por que esse tipo de organização é importante e o que consegue em termos de saúde e direitos dos jovens?
LAD: Segundo entendo, nenhuma agenda marginalizada e que lute pelos direitos humanos de diferentes grupos de pessoas poderá realmente avançar sem uma organização muito sólida nos diferentes níveis na base – tanto regional como internacionalmente. Precisamos estar muito bem organizadas e ser muito estratégicas. Precisamos utilizar mecanismos, tais como redes e outras formas diferentes de nos unirmos. Encontraremos então um meio de usar estratégias eficazes para pressionar ou defender a agenda ou elaborar novas idéias e determinar as questões a serem pressionadas à medida que muda o contexto.
Organizar os jovens é elemento essencial para os movimentos tanto de jovens como de feministas, porque muitas das questões em que se empenham ambos os movimentos são realmente importantes para os jovens, para as feministas e para os direitos da mulher. No campo dos direitos sexuais e reprodutivos há muitas questões em que a juventude sofre discriminação. Estamos presenciando impactos realmente terríveis em conseqüência dos quais morrem pessoas e alguns direitos muito básicos não são respeitados. Sem uma organização sólida pode-se dispor de uma política bonita, mas não se irá longe. Evidencia-se isto, por exemplo, quando há um governo progressivo com uma boa política e pouco apoio no nível de base. O resultado é que a direita o desafia e não há ninguém para defendê-lo.
JK: Como a sua experiência se enriqueceu em conseqüência de reunir-se com outros jovens de diferentes partes do mundo – jovens ativistas, jovens feministas?
LAD: De formas muito diferentes. Ao reunir-se com jovens ativistas de diferentes regiões percebem-se os aspectos específicos do contexto e os diferentes tipos de elementos que se está enfrentando. No entanto, ao mesmo tempo, também se vêem aspectos comuns. Por exemplo, a discriminação contra as mulheres jovens em termos da nossa sexualidade, direito ao próprio corpo e direito de tomar decisões a respeito do próprio corpo ocorre praticamente em todos os campos. Naturalmente, isso ocorre de formas diferentes... mas mesmo nos países considerados mais abertos e progressivos, as mulheres jovens enfrentam questões diferentes no tocante à relação com o próprio corpo e com a sua capacidade de tomar decisões autônomas. Creio que é muito importante – e é algo em que tenho pensado e refletido – o fato de considerarmos a juventude como construção social ao falarmos de sexualidade e questões de direitos reprodutivos e sexuais.
Creio que muitas organizações projetam muitas tendenciosidades a respeito do modo como os jovens são percebidos - afirmando que são irresponsáveis e não sabem o que querem fazer. Não creio que os jovens sejam irresponsáveis e que não saibam o que querem fazer, mas muitos jovens acabam por acreditar nessa afirmação e adotá-la. Um elemento realmente essencial que ressaltou na nossa conversa e aprendizado com outras ativistas foi descobrir como criar uma visão e raciocínio para defender o nosso direito de usufruir plenamente a nossa sexualidade e os nossos direitos sexuais e reprodutivos. Precisamos superar o estigma do jovem irresponsável em risco e passar para uma visão de vida aprazível e plena com dignidade e total desenvolvimento da pessoa e considerar os jovens como pessoas com direitos.
Nas nossas conversas não somente compartilhamos informação sobre o nosso trabalho no México e na região, mas também tomamos conhecimento do trabalho dos jovens em outras regiões. É muito importante utilizar essa informação para compreender as experiências das outras pessoas e o que funcionou em outros contextos e que tipos de parceria podem ser criados. Percebo uma grande mudança no modo como os jovens estão participando hoje em dia de questões diferentes. Passamos de um lugar em que grande parte do enfoque era apenas criar e reivindicar espaços para uma participação mais integral e substancial. Espera-se dos jovens não apenas que sejam jovens, mas também que digam o que pensam, compartilhem os seus conhecimentos e contribuam. Nós, da AWID consideramos isso um elemento-chave no nosso trabalho de jovens feministas ativistas. Vemos as jovens feministas como parceiras e contribuintes para fortalecer o movimento. Não as consideramos apenas como receptoras passivas de formação ou informação. Cremos que as mulheres jovens estão realizando de fato um trabalho excepcional no mundo inteiro, às vezes sem receber o crédito ou a visibilidade que merecem. Portanto, a criação de redes globais e regionais são elementos muito importantes, porque ajuda a compreender a importância do trabalho que se realiza no nível local em comparação com o que está acontecendo em outros lugares.
JK: Você poderia falar um pouco mais sobre a ELIGE?
LAD: A ELIGE é uma organização de jovens. É dirigida por jovens e de fato uma regra estipula que uma pessoa com 30 anos superou a idade... e assim eu superei a idade há alguns anos... Eu realmente me sinto orgulhosa porque já tivemos dois turnos de liderança e a organização completa 10 anos este mês. Creio que se tornou ponto de referência no México e na região pelo tipo de trabalho, tipo de pensamento, tipo de propostas em muitos níveis diferentes que os jovens são capazes de realizar quando se lhes dá o poder e podem ter o próprio espaço, definir agendas nos próprios termos ou participar e negociar com outros – não como um apêndice, não como um símbolo, mas como atores políticos. Como dizemos em espanhol ou português, detentores ou portadores de direitos. Assim, para a ELIGE, trata-se de algo muito importante e, embora eu não esteja mais lá, sinto-me como uma parte muito grande dela.
A organização oferece muita formação e desenvolvimento de política pública. Consegui influenciar o governo local da Cidade do México a ter um espaço especial chamado "Espelho de Lila" em vários centros de apoio à mulher de que dispõe o governo municipal. É um espaço seguro para mulheres jovens falarem e aprenderem a respeito dos seus direitos sexuais e reprodutivos e terem acesso à orientação sobre a violência contra a mulher, entre outras coisas. Tudo isso é proporcionado por outros jovens que receberam formação da ELIGE e por outros especialistas do governo. Oferecem mobilização de recursos comunitários, formação, reforço de capacidades e criação de redes.
Nós sempre nos vimos a nós mesmas - e creio que o mesmo continua a suceder às moças – como tendo um pé no movimento feminista – e no movimento mais amplo em prol da mulher – e o outro no movimento da juventude. Assim, no movimento da juventude pressionamos questões de direitos da mulher, direitos sexuais e reprodutivos, etc. No movimento em prol da mulher pressionamos a importância de compreender a necessidade de que os jovens participem da discussão sobre o que é mais específico a respeito das mulheres jovens e qual a relação entre juventude e gênero. A ELIGE tem refletido muito sobre isto. O que significam a identidade ou as condições de vida dos jovens e o papel que eles desempenham quando se procura defender direitos, especialmente os direitos da mulher?
Eles têm também um projeto para documentar violações dos direitos sexuais e reprodutivos e têm participado intensamente do movimento feminista em diferentes campanhas. Por exemplo, em todo o trabalho realizado no início da década de 2000 para mudar o código penal da Cidade do México, a ELIGE foi a única organização de jovens a participar desse processo.
Consideramos a organização como parte do movimento e assumimos posição de liderança também na região. É interessante, porque eu fui a representante regional para a Conferência Beijing + 5 na Comissão Internacional de ONGs e a coordenadora no ano passado era uma das representantes na região para a Beijing + 10. Assim, a ELIGE continua a desempenhar um papel que ultrapassa os simples direitos sexuais e reprodutivos ou simplesmente o México ou simplesmente a juventude. No ano passado a ELIGE trabalhou muito na mobilização e ativismo no Encontro Feminista, preparando listas de endereços eletrônicos, organizando várias discussões no Fórum Social Mundial e Beijing + 10 que levaram a uma participação considerável, porque o fizeram com grupos de mulheres jovens do Chile, Brasil e América Central.
JK: Na sua opinião, quais são os principais desafios que enfrentam os jovens hoje no México, na Costa Rica, na região ou até mesmo globalmente?
LAD: Naturalmente os jovens são afetados pelos principais desafios que neste momento presenciamos no mundo. Questões de pobreza crescente, dificuldade de conseguir emprego e boas condições de trabalho. Observamos, por exemplo, que a taxa de desemprego entre os jovens em muitos países da região é realmente alta. Mesmo quando se comparam estes dados com dados de pessoas com mais de 18 anos de idade ou pouco mais percebe-se que às vezes se trata de uma taxa duas vezes mais alta. Portanto, creio que a questão da pobreza e do desemprego é muito importante, porque tem a ver com a qualidade de vida.
Naturalmente, questões sobre sexualidade e acesso à informação e serviços sem tendenciosidade, científicos e objetivos, que não estigmatizem os jovens como irresponsáveis, não impinjam valores religiosos e não limitem a capacidade de exercer os próprios direitos. É algo muito necessário e não está presente. À medida que políticas de reajuste e outros tipos de reformas setoriais – no setor da saúde, por exemplo – reduzem o papel do Estado na prestação desses tipos de serviço, a situação agrava-se.
Questões relacionadas com a violência são também um desafio. Aumenta na região a criminalidade – quadrilhas, drogas e traficantes – e creio que isto também afeta os jovens. Não se pode esquecer, naturalmente, da violência contra a mulher... na região a questão do assassinato de mulheres é um problema enorme. Em muitos lugares, as pessoas assassinadas são na maior parte mulheres jovens com menos de 30 anos de idade. É um questão de enormes proporções, porque ainda não descobrimos como atualizar a análise e a estratégia para enfrentar a questão da violência contra a mulher no contexto atual, o que constitui um desafio muito grande.
Organização da juventude – é de fato um desafio, porque não creio que tenhamos um movimento muito de forte de juventude na região. Há sérias tentativas, mas não foram realmente consolidadas. Para mudar a situação dos jovens, muito precisa ser feito em termos de mobilização de jovens e trabalho com eles.
A questão do fundamentalismo e a força da Igreja Católica, em particular, na América Latina e no Caribe constituem uma grave preocupação, porque afetam tantos níveis diferentes. Afetam a cultura, mas também a política pública. Exercem um impacto importante no raciocínio hegemônico a respeito de sexualidade e reprodução que focaliza a culpa e a punição. Pressionam pela abstinência como opção – creio que está bem como opção, mas não como a única opção.
Precisamos realmente nos empenhar no enfoque dos direitos e assim promovermos o respeito pelos diretos dos jovens. Isto significa desafiar-nos para compreender que é direito dos jovens exercer a própria sexualidade e não apenas algo que lhes dá a sociedade. Por exemplo, damos aos jovens acesso à camisinha. Eu não considero isso um elemento muito importante somente para prevenir o HIV/AIDS ou a gravidez indesejada, mas também como meio de usufruir plenamente da sexualidade. O objetivo mais importante da prestação de serviços e informação é dotar as pessoas de ferramentas para que exerçam plenamente os seus direitos e, como resultado, prevenir a AIDS, prevenir a gravidez indesejada, prevenir muitos outros problemas.
JK: Na sua opinião, quais são as coisas mais importantes que os programadores e formuladores de política podem fazer para melhorar a forma como promovemos e protegemos a saúde e os direitos dos jovens e especificamente das mulheres jovens?
LAD: Primeiro, creio que deve haver mecanismos claros envolvendo os jovens e assegurando que eles participem de forma significativa. Com outras palavras, não somente usar os jovens como símbolos, como geralmente acontece, mais realmente capacitá-los e dar-lhes os recursos para que possam contribuir para a substância da discussão. Para mim, a participação sem recursos e mecanismos é apenas retórica. Creio que os jovens são parceiros muito importantes na elaboração dessas políticas. Precisam estar mais envolvidos e os formuladores de políticas devem assegurar que os mecanismos sejam implementados.
Ao mesmo tempo, há muito que aprender das boas experiências nas quais os jovens são vistos como sujeitos de direitos e políticas públicas e, por sua vez, procuram proporcionar condições diferentes para os jovens exercerem os seus direitos. É algo muito diferente de uma simples abordagem epidemiológica, tal como distribuir camisinhas para deter a disseminação do HIV/AIDS. O fato de que meios como anticoncepcionais de emergência estejam disponíveis e sejam facilmente acessíveis é muito importante para os jovens, porque eles precisam ser capazes de usufruir a sua sexualidade e fazer escolhas relacionadas com a reprodução.
Também enfrentar certas questões-chave relacionadas com a limitação do poder e influência da Igreja na formulação de políticas públicas. No México, há uma grande discussão no momento a respeito de alguns manuais escolares publicados pelo Governo para o nível secundário. A Associação Nacional de Pais e a Igreja estão boicotando a sua distribuição, exigindo que todas as seções sobre a sexualidade – que na realidade não são más, em termos de conteúdo – sejam removidas. É uma discussão corrente. Em termos de formulação de política, precisamos sem dúvida afirmar a secularidade do Estado, porque essas atitudes têm um impacto realmente penetrante na vida das pessoas. Creio que a atitude da ala direita conservadora e da Igreja está de fato matando pessoas.
JK: Você poderia descrever a sua visão de um mundo ideal ou melhor?
LAD: Para mim, os direitos humanos são um contexto muito importante. É um mundo em que se garante a todas as pessoas os seus direitos humanos. Ou seja, todos têm o que necessitam para levar uma vida satisfeita e desenvolverem a si mesmos.
É um mundo em que a noção de ser humano foi totalmente expandida para significar uma compreensão realmente ampla não somente de mulheres e homens, mas transexual e intersexual. Portanto, a definição do que significa ser humano mudou e ninguém será discriminado em virtude da sua identidade específica. Naturalmente, nesse mundo a discriminação será algo do passado.
É um mundo sem violência – para todos. É um mundo com um sistema multilateral excepcional, como o das Nações Unidas ou algo semelhante, que realmente funciona, que realmente reduz o conflito, que realmente mantém a paz e que assegura uma distribuição eqüitativa de recursos e riqueza no mundo de forma sustentável.
É um mundo em que somos capazes de realmente evitar a ameaça da mudança climática. No qual existe uma relação equilibrada entre cada pessoa e com a natureza. É um mundo em que diferentes grupos de pessoas podem participar criativamente da definição de políticas públicas. No qual as empresas são muito bem regulamentadas e são responsáveis perante as pessoas, não perante o lucro. No qual os Estados realmente existem para proteger os direitos – e não violá-los como geralmente fazem – e no qual foi construída uma estrutura para proteger os indivíduos contra violações de direitos por parte de atores privados provenientes de todos os tipos de sector.
É um mundo em que a espiritualidade é muito forte – mas é uma escolha e não uma imposição sobre as pessoas. O importante é que as pessoas possam escolher em termos do modo como desenvolvem a sua espiritualidade e não apenas uma religião institucionalizada a impor coisas.
Naturalmente, é um mundo muito eqüitativo, no qual as mulheres participam plenamente de todos os tipos de decisão a respeito da vida tanto pública como privada. No qual as pessoas realmente se interessam umas pelas outras, deixando de lado a cultura de que cada qual salve a si próprio sem se preocupar com o resto. É um mundo no qual as comunidades são muito importantes como formas de apoio e referência, mas não espaços de opressão como às vezes acontece.
É um mundo em que ferramentas como a tecnologia de comunicações e a mídia existem para realmente melhorar a cultura, celebrar a diversidade e utilizá-la e não impor uma cultura de mercado hegemônica como a que temos agora. É um mundo em que a ciência e a tecnologia estão a serviço de assegurar que as pessoas vivam a melhor vida possível. No qual ninguém morra de fome e no qual não haja guerra. No qual a sexualidade seja plenamente adotada como parte importante do que significa ser humano e não haja discriminação decorrente do modo escolhido para expressá-la.
E haja um forte movimento feminista para assegurar que tudo esteja funcionando bem. Todos os tamanhos, formatos e sabores diferentes de grupos feministas, muito bem conectados, muito bem providos de recursos, realizando diariamente coisas fantásticas no campo de atividades para proporcionar às mulheres melhores condições para usufruir os seus direitos.
JK: Como você entrou em contato pela primeira vez com a IWHC?
LAD: Eu conheci François Girard e Wilhelmina Waldman (que na época trabalhavam na IWHC) durante o processo de preparação da Beijing + 5. E por meio de François conheci Adrienne Germain e outras pessoas da IWHC que faziam parte da equipe do processo de preparação da Beijing + 5.
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