Neha Sood
26 anos
Coordenadora de Programas, Creating Resources for Empowerment in Action (Criação de Recursos para Empoderamento em Ação - CREA)
Índia
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Neha Sood é ativista feminina residente em Nova Delhi, Índia, onde trabalha para a CREA desde abril de 2004. Neha trabalha em diferentes programas da CREA que atuam como catalítico de aprendizado, tais como programas de intercâmbio, workshops de treinamento, reuniões temáticas e criação de material sobre educação pública, enfocando questões de sexualidade, direitos reprodutivos e sexuais, violência contra a mulher e direitos da mulher. É também membro da Youth Coalition for Sexual and Reproductive Rights (Coalizão da Juventude para Direitos Sexuais e Reprodutivos - YCSRR), desde maio de 2006 e trabalha na promoção de direitos a aborto seguro.
IWHC: Qual é a sua primeira lembrança de uma situação em que se tornou consciente da desigualdade por motivo de gênero ou foi por ela afetada?
Neha Sood: Minha primeira lembrança é a de um vizinho repreendendo e espancando sua filha ao descobrir que mantinha um relacionamento com um homem. Eu me lembro de me perguntar por que o que ela tinha feito era considerado errado e por que estava sendo castigada. Outras lembranças daquela época são de ler constantemente nos jornais notícias de estupro em Nova Delhi, onde eu morava, e de meus pais dizendo para não ficar fora de casa à noite porque "não era seguro para as meninas".
IWHC: Como a experiência de crescer em Nova Delhi era diferente para moças e rapazes? As atividades ou percepções do futuro eram diferentes para moças e rapazes?
NS: Há muitas formas pelas quais as desigualdades de gênero são experimentadas pelas moças e rapazes. As moças geralmente enfrentam assédio sexual em lugares públicos, além da casa e do bairro (embora os rapazes também enfrentem abuso no próprio ambiente imediato). A mobilidade das moças é restrita, ostensivamente para protegê-las contra tal abuso, mas limitando seu acesso a muitas oportunidades. Também se supõe que não tenham relações sexuais até se casarem com um homem, embora seja aceitável que os rapazes sejam sexualmente ativos antes de casarem. Em um contexto de classe média, embora esses estereótipos sobre os interesses e atividades das moças e rapazes sejam fortemente predominantes, há mesmo assim uma aceitação crescente de escolhas que talvez não se enquadrem nesses estereótipos.
IWHC: Ao crescer, você aprendeu ou falou sobre sexo e saúde e direitos reprodutivos?
NS: Meus pais nos fizeram sentar - a mim e a meu irmão - para falar sobre a "cegonha" - anatomia, sexo e reprodução - quando éramos pequenos e também nos deram livros para ler sobre adolescência, sexo, relacionamentos românticos e anticoncepção. Eu também aprendi de vários artigos em revistas, informação compartilhada com amigos, shows de televisão, filmes e uma sessão embaraçosa na escola secundária sobre anticoncepcionais e doenças sexualmente transmissíveis.
IWHC: Como você começou a participar da luta pelos direitos das mulheres e dos jovens?
NS: Até há alguns anos eu não era politicamente ativa nem estava conscientizada e aos poucos comecei a ficar preocupada com a minha falta de conhecimento e perspectiva. Uma vez recebido o meu diploma em Comércio aos 20 anos de idade, compreendi que eu queria participar da melhoria da qualidade de vida das pessoas. Assim, eu me matriculei no programa de Mestrado em Trabalho Social e, enquanto estudava, decidi trabalhar em desenvolvimento comunitário e direitos humanos.
Como jovem criada em Nova Delhi, normas de gênero, tendenciosidades e discriminação faziam parte de minha experiência. Como conseqüência, quando regressei a Nova Delhi depois do curso de mestrado, eu queria fazer parte do movimento de mulheres ativas de lá e então entrei para a Creating Resources for Empowerment in Action (Criação de Recursos para Empoderamento em Ação - CREA).
Minha prioridade era divulgar a conscientização e a perspectiva feminista de gênero e sexualidade entre os jovens nos colégios universitários, uma vez que eu fui privada dessa informação naquela fase da minha vida. Na minha primeira reunião com o pessoal da CREA, eu descrevi como a educação sobre sexualidade estava totalmente ausente do ensino formal e dos sistemas universitários. Além da gestão da menstruação e das doenças sexualmente transmissíveis, eu não tinha recebido nenhuma informação sobre gênero, sexualidade ou expressão sexual. Como resultado, eu tinha uma visão estreita dos relacionamentos e escolhas sexuais. E eu tinha um forte desejo de me empenhar para mudar essa situação.
IWHC: O que levou você a trabalhar especificamente com a CREA?
NS: Ao me reunir com os membros da CREA, fiquei muito entusiasmada com as crenças e convicções principais surgidas de nossas conversas. Discutimos como diversas estruturas de poder existem na sociedade, estão vinculadas entre si e precisam ser desafiadas. Por exemplo, as mulheres enfrentam múltiplos níveis de discriminação em conseqüência do gênero, idade, situação econômica, ocupação, raça, casta, etnicidade, incapacidade, nacionalidade, cidadania e muito mais.
Outra convicção da CREA é que as mulheres podem desenvolver as próprias soluções para situações difíceis, mas é necessário primeiro desenvolver as próprias capacidades de liderança. Os jovens também fazem parte de grupos importantes interessados em potencial de liderança que precisa ser fortalecido. A CREA baseia-se em princípios feministas sólidos e eu me senti atraída para trabalhar nesse ambiente.
IWHC: Na sua opinião, como a CREA mudou a vida dos jovens?
NS: Para a CREA os direitos humanos aplicam-se aos jovens da mesma forma que a qualquer outra pessoa e os jovens têm em si próprios o poder de exigir e realizar seus direitos humanos. Nossos workshops incentivam os jovens a desafiarem todo tipo de discriminação e lutar por uma sociedade justa para todos. Promovem um sentido de direito, um espírito inquisitivo e um desejo de procurar e acessar informação e recursos que melhorem a qualidade de vida.
Além disso, a CREA levanta questões e temas que muitos dos jovens com quem trabalhamos anda não analisaram, inspirando muitos pensamentos e perguntas. Por exemplo, compreender que a incapacidade é socialmente construída e não um conceito objetivo surge como uma revelação para muitos. Da mesma forma, é intrigante analisar como a sexualidade é uma questão central nos direitos da mulher e nas violações que enfrentam em situações de conflito armado. Muitas das jovens com quem trabalhamos voltam para mais discussões, pedindo mais informação sobre diferentes questões.
Em todo esse processo, o pessoal da CREA não pressupõe que saibamos do que os jovens necessitam ou o que querem aprender. Ao contrário, toda a programação é consultiva, flexível e constantemente sensível ao feedback.
Por exemplo, um dos programas da organização reúne um grupo de jovens que trabalham no Egito, Índia e Palestina para compartilharem uma experiência de aprendizagem na Índia. Aprendem um do trabalho, experiências e perspectivas do outro e de outras organizações e atividades no campo. O programa, em andamento há quatro anos, tem evoluído constantemente com base no feedback dos participantes. Entre outros elementos, foi reestruturado para incluir participantes indianos, reunir participantes em um estágio em profundidade e organizar um workshop de treinamento no Egito sobre gênero e sexualidade em virtude da falta de um movimento generalizado de defesa de direitos sexuais nesse país.
Após as visitas de aprendizado, a CREA incentiva os participantes a formarem redes autônomas e a construírem parcerias. Recentemente, um grupo de antigos participantes se reuniu para traduzir materiais de recursos sobre sexualidade em seu idioma nativo. Eles mesmos escolheram esse curso de ação e a CREA os apoiará da forma que for necessária.
IWHC: O que você considera como os principais desafios que os jovens enfrentam hoje na Índia? E quais são as maiores oportunidades?
NS: O desafio mais significativo que enfrentam os jovens na Índia é o fato de geralmente não serem levados a sério ou considerados capazes de tomar decisões sobre a própria vida. A marginalização histórica com base no gênero, casta, religião, classe, sexualidade e incapacidade impede muitos jovens de realizarem o próprio potencial.
Pode parecer lugar comum, mas a maior força dos jovens é o fato de que, com o devido incentivo, são capazes de fazer progresso social e político significativo.
IWHC: De que você mais se orgulha?
NS: Eu me orgulho de meus pais e de meu parceiro, que apóiam meu ativismo e compromisso e constantemente ampliam os próprios limites e compreensão.
IWHC: Como você imagina seu futuro?
NS: Eu imagino continuar a incentivar e construir compreensão a respeito de questões de gênero, sexualidade e intersecções com outras questões de defesa de direitos, com diferentes grupos de pessoas e de formas diversas. Eu imagino também continuar a aprofundar meus conhecimentos sobre questões e outras pessoas durante toda a minha vida.
IWHC: Você pode descrever sua visão de um mundo ideal ou melhor?
NS: Em conformidade com a minha visão, eu trabalho por um futuro em que todos se respeitem de forma mútua e igual e atribuam a si mesmos o devido valor; em que não haja preconceitos ou tendenciosidades com base na idade, religião, gênero, sexualidade, casta, raça ou classe; em que todas as instituições e organizações tenham os direitos humanos no centro de seus princípios de atuação.E
IWHC: Como você tomou conhecimento pela primeira vez da International Women's Health Coalition (Coalizão Internacional para a Saúde da Mulher - IWHC)
NS: Eu tomei conhecimento da IWHC porque ela financia a CREA no trabalho de fazer avançar os direitos humanos da mulher. A IWHC também trabalhou com a Youth Coalition for Sexual and Reproductive Rights (Coalizão da Juventude para os Direitos Sexuais e Reprodutivos - YC), outra organização de que fiz parte. A YC é uma organização internacional de jovens dedicados a promover os direitos sexuais e reprodutivos dos jovens nos níveis nacional, regional e internacional.
Com base em minha função de jovem defensora dos direitos da mulher e do jovem, a IWHC me convidou para participar de uma sessão de treinamento, intitulada Advocacy in Practice (Defesa dos Direitos na Prática - AiP), programada para antes da 51ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW). O enfoque da AiP era desenvolver um quadro de defensores novos e jovens para trabalhar em todos os níveis do processo de políticas, os quais também compartilhariam informações, experiências, realizações e preocupações. Aguardo a oportunidade de participar mais de tais iniciativas que reconheçam as capacidades dos jovens e trabalhem para reforçá-las.
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